CHAMADA ABERTA
Dossiê: Inteligência Artificial e capitalismo digital na América Latina: futuros em disputa e direitos em transformação
Coordenadores:
Ana Rivoir (Universidad de la República de Uruguay)
Dídimo Castillo (Universidad Autónoma del Estado de México)
Nas últimas décadas, os processos de digitalização, datificação e automação transformaram profundamente a organização do trabalho, a produção de conhecimento e as formas de regulação social. Mais recentemente, o desenvolvimento acelerado de sistemas de inteligência artificial (IA), em particular aqueles baseados em grandes volumes de dados e modelos de aprendizagem automática, intensificou essas transformações, reconfigurando práticas institucionais, decisões públicas e privadas e regimes de autoridade epistemológica.
A expansão dessas tecnologias inscreve-se em uma fase do capitalismo caracterizada pela centralidade dos dados como recurso estratégico, pela concentração de capacidades tecnológicas em grandes corporações e pela crescente dependência tecnológica das regiões periféricas. Esse processo — conceituado como capitalismo digital, de plataformas ou de dados — acelerou-se durante a pandemia e o período pós-pandemia, aprofundando desigualdades preexistentes e gerando novas formas de precarização e exclusão.
A IA não apenas introduz inovações técnicas, mas também coloca questões epistemológicas e ontológicas fundamentais. Transformam-se os modos de produção, validação e circulação do conhecimento em contextos de automação cognitiva e tomada de decisões algorítmica, e emergem debates sobre a redistribuição da agência entre humanos e sistemas técnicos, a configuração de arranjos sociotécnicos e a redefinição das fronteiras entre o humano e o artificial. Da mesma forma, a expansão da IA coloca desafios normativos e éticos relacionados a direitos, justiça social, soberania tecnológica e democracia. As disputas em torno do controle de dados, da regulação algorítmica, da concentração de poder corporativo e dos vieses automatizados revelam que os processos em curso não são neutros nem inevitáveis, mas configurações sociopolíticas abertas e dinâmicas.
Na América Latina e no Caribe, o conhecimento sistemático sobre os âmbitos de aplicação, as implicações estruturais e os impactos sociais da IA continua sendo limitado e fragmentado. Este dossiê propõe contribuir para um debate crítico e situado sobre a inteligência artificial e promover pesquisas rigorosas que permitam compreender tanto as dinâmicas de poder e desigualdade associadas à IA quanto as configurações institucionais, regulatórias e sociais que orientam seus desenvolvimentos presentes e futuros.
Serão aceitas propostas que considerem um dos seguintes eixos:
- Epistemologia e ontologia na era da IA
● Transformações nos regimes de produção e validação do conhecimento
● Automação cognitiva e autoridade algorítmica
● Debates ontológicos sobre agência, arranjos sociotécnicos e o humano-artificial
● Implicações éticas na produção e no uso do conhecimento algorítmico - Estado, governança, regulação e soberania tecnológica
● Uso da IA na gestão pública
● Governança digital, regulação e marcos normativos
● Soberania tecnológica e infraestruturas digitais
● Dimensões éticas no desenho, implementação e controle de sistemas de IA - Democracia, direitos, poder e justiça social
● IA e deliberação pública
● Direitos humanos e sistemas algorítmicos
● Concentração de poder e geopolítica da IA
● Vieses algorítmicos, discriminação e justiça social
As contribuições devem contemplar uma perspectiva regional latino-americana e são especialmente bem-vindas aquelas que incluam estudos comparativos entre países e unidades subnacionais (como províncias, estados e cidades), sem deixar de lado os estudos de caso.
As produções deverão respeitar o enfoque da revista e as normas de publicação. O dossiê será publicado em junho de 2026.
Prazo de envio: 17 de abril de 2026.



